CUCUMBI

 À medida que a Pandemia avançava sem tréguas, condicionando assim as decisões tomadas, a ideia de passar uns dias no estrangeiro foi desvanecendo, libertando orçamento para passar um tempo de qualidade e desfrutar das fantásticas condições que Portugal tem para oferecer. O Cucumbi já estava referenciado não só pela sua maravilhosa paisagem sobre o montado alentejano, mas também pela sua apetitosa piscina, design minimalista em tons claros e proximidade de Lisboa. Fazia-nos sentido que a comida pudesse, de certa forma, acompanhar as demais virtudes, contudo esse factor não pesou na decisão.



No dia da chegada, a primeira surpresa boa aconteceu quando nos apercebemos que íamos usufruir de pensão completa. "Gastar menos que o esperado só pode ser bom", pensámos nós. Mas o melhor ainda estava para vir, quando nos sentámos pela primeira vez numa das mesas exteriores, debaixo do céu estrelado. Finda a refeição, pensámos "3 vezes isto ao dia é excelente, vamos ficar mal habituados. E com pensão completa, é jackpot!". 



Acontece que o Cucumbi não se fica pelo hotel rural, já que é composto por uma quinta de 118 hectares, a qual se trata ainda de um produto inacabado, uma vez que as ideias para o aprimorar são muitas. Tive possibilidade de testemunhar isso mesmo na primeira pessoa, durante um passeio matinal conduzido por António Francês, que juntamente com a sua mulher Catarina e restante família, faz a gestão do Cucumbi.



É desta majestosa quinta que é proveniente boa parte da comida biológica que nos é presenteada ao pequeno-almoço, almoço e jantar, sendo que o objectivo é que seja a totalidade. A herdade é variada, com um extenso rebanho de ovelhas, estufa, aviário, horta e colmeias, onde a prioridade passa por potenciar as raças autóctones portuguesas.



Os pequenos almoços envolviam sempre fruta da época, que iam da cereja até à meloa, passando pelo melão, melância, amoras e framboesas, contando também com o sumo de laranja da quinta. Peço-vos desde já desculpa pela repetição da palavra "quinta", mas urge evidenciar tudo o que é fruto (ou não) daquele lugar. Era possível escolher entre ovos mexidos e estrelados, os quais eram acompanhados por tomate da quinta. Escusado será dizer de onde são provenientes os ovos, não é verdade? A manteiga tem a textura perfeita para barrar, cremosidade máxima. 



Mas a melhor parte foi ter o privilégio de poder voltar a comer uma porridge de categoria, algo quase impossível de encontrar em bom nos brunches lisboetas da moda, já que normalmente é uma pasta grossa e sem graça - gosto demasiado da palavra porridge para usar a palavra portuguesa. O mel que consta da receita é da quinta e é tão bom, que no check out trouxe um frasco. Todos os dias havia um bolo diferente, que podia ser de espinafres e côco, ou banana com noz, por exemplo. O café, suave, não gritava por açúcar.



Todas as refeições aconteciam mais para o tarde do que para o cedo, porque aqui não há pressas e todos nos regemos pelo slow living, um dos mottos deste lugar. O pequeno-almoço, almoço e jantar acontecia por volta das 9h, 14h e 21h, respectivamente, sendo que normalmente é oferecida água e fruta aos hóspedes que passam a tarde junto à piscina.

O almoço e jantar seguem o mesmo principio do aproveitamento da quinta: não é à toa que toda a família tirou um curso de Agricultura Biológica, para que pudessem ter os conceitos base, e a partir daí evoluir recorrendo a conhecimento externo e com a própria experiência.



Os pratos detalhados não constam deste texto porque foram várias as refeições e sobretudo porque dias passados no recato alentejano querem-se tranquilos, sem a avidez de absorver informação. Para além disso, a filosofia "from farm to table" faz com que a oferta possa variar em função da sazonalidade dos produtos. Não obstante isso, podemos enumerar alguns dos nossos favoritos: puré de courgette, ovos mexidos com beldroegas, gyosas de cogumelos, tempura de courgette, fried rice com vegetais e muitas fantásticas saladas pelo meio. 



A sobremesa, nesta época mais quente, regra geral é um gelado de fruta onde as opções rodavam entre a meloa, os frutos silvestres ou morango. Lembro-me de num dos jantares ter sido uma espécie de fina panqueca com gelado de baunilha e açafrão.



Estamos, portanto, a falar de uma cozinha altamente criativa e familiar, onde o bom ambiente e a música reinam, num espaço aberto e minimalista que em tempos que não os de pandemia estimulam ao envolvimento dos hóspedes.

Por fim, uma curiosidade: estivemos hospedados no Cucumbi na semana das fortes trovoadas que se abateram sobre Lisboa, mas que também se fizeram sentir neste lugar. Num destes dias, a electricidade faltou e o staff ofereceu-se para nos compensar com uma refeição de petiscos em Montemor. Aí tive oportunidade de privar com o António e a Catarina, um casal simples e inspirador que muito trabalhou para proporcionar esta fantástica experiência que é o Cucumbi. Merecem toda a sorte do mundo.




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